Pequenas e médias empresas são capacitadas para desenvolver estratégias empresariais para a sustentabilidade em ciclo de oficinas

Atividade integra o projeto ‘Ancorando Cadeias de Valor Sustentáveis no Brasil’, realizado para apoiar PMEs na transição para uma economia circular e de baixo carbono

 

Desde junho de 2023, em torno de 55 pessoas de pequenas e médias empresas (PMEs) estão participando de oficinas sobre temas de sustentabilidade para fortalecer ou desenvolver conhecimentos e competências que as ajudem a incorporar o tema em suas estratégias empresariais. A ação integra o projeto ‘Ancorando Cadeias de Valor Sustentáveis no Brasil’ (leia mais abaixo) e envolve um grupo de PMEs ligadas às empresas Telefônica Brasil (Vivo) e Neoenergia, selecionadas para integrar a iniciativa e tornar suas cadeias de valor mais sustentáveis.  

Com 10 aulas já realizadas, muitos aprendizados puderam ser construídos. Também aconteceram aproximações entre as participantes e a concepção de novos projetos – alguns em fase de execução.  

Na visão de Paulo Caixeta, diretor comercial da PSI Energy, empresa que atua no setor de energia, as oficinas têm como diferencial a abordagem prática, pois as aulas tratam de maneira objetiva quais ações concretas podem conduzir as PMEs para uma economia circular e de baixo carbono e de que maneira elas devem reportar essas ações ao mercado, afirma. Essa característica é reforçada nos momentos de intercâmbio de experiências entre as empresas, reforça Giuliana Scarelli, coordenadora de Gente e Gestão da empresa. “Tem sido importante ver que não estamos sozinhos nesse processo e que temos um espaço para nos apoiar e trocar informações”, relata.  

A oportunidade de inserir as PMEs nas discussões e práticas da gestão para a sustentabilidade – mais comum entre as grandes empresas – é outro ponto alto das oficinas, relatam alguns participantes. André Gomes, gerente de Sistema de Gestão Integrado da Isoelectric, empresa que atua nos mercados de transmissão e distribuição de energia, conta que foi a partir dos encontros formativos que a organização foi apresentada à economia circular e se atentou para a necessidade de gerenciar melhor seu principal resíduo, o silicone – inclusive a partir do design dos produtos que desenvolve.  

As aulas também estão conferindo às participantes uma visão do todo, como define Wanderley Silva, diretor da Nano Fiber, empresa que atua com importação, fabricação e comercialização de produtos de tecnologia. “A gente tinha aquela visão de que bastava fazer a nossa parte. Mas eu nunca tinha parado para pensar que, como eu faço importação, a minha atividade não se limita ao escritório. Os materiais chegam de navio, atravessam continentes, e isso tem um impacto sobre o planeta”, conta.   

Sistematização, reporte e novos projetos 

Em comum, muitos participantes perceberam ao longo das oficinas – e por meio do diagnóstico realizado pelo projeto –, que já estavam inseridos na agenda, ainda que em diferentes estágios. “Para citar alguns exemplos, já fazemos reuso de água, coleta seletiva de resíduos eletrônicos e logística reversa. A diferença é que não documentávamos e não medíamos muitas dessas ações, o que começou a mudar desde a nossa inserção no programa”, conta Ana Paula Wist, coordenadora de Sistema de Gestão Integrada da Datacom, empresa que desenvolve produtos e soluções tecnológicas.  

Essa sistematização e documentação das ações já realizadas vai gerar na PSI Energy o primeiro relatório de sustentabilidade da organização, previsto para ser publicado entre janeiro e fevereiro deste ano. “Com as oficinas, mapeamos riscos e oportunidades e as expectativas das partes interessadas. Sabemos onde estamos e o que precisa ser melhorado agora”, afirma Jonathan Muniz. De 2024 em diante, os relatórios passarão a ser realizados a cada dois anos para reforçar, de maneira transparente, o compromisso da organização com a incorporação da sustentabilidade em sua estratégia de negócios, acrescenta Muniz.  

As oficinas também estão mudando percepções e gerando ideias para novos projetos. As questões de diversidade e equidade de gênero ganharam relevância para Wist, que adianta que, para 2024, a empresa deverá promover uma atualização e formalização de políticas. “A partir das oficinas, comecei a refletir mais sobre as condições de participação das mulheres no mercado de trabalho e a olhar para dentro da nossa empresa. Ainda que a Datacom já tenha políticas e regras, elas não estão formalizadas. A meta para 2024, portanto, é resolver esse ponto”, adianta.  

A Nano Fiber aguarda as próximas duas oficinas para desenvolver sua estratégia para sustentabilidade. Mas Silva adianta que pretende inventariar as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e compartilhar formalmente com todos os colaboradores da empresa parte dos conhecimentos desenvolvidos ao longo do ciclo de formação. Este processo já começou, mas por enquanto ainda restrito a um grupo de pessoas, como conta Lucas Guimarães, analista de Qualidade da empresa. “O conteúdo das oficinas está nas conversas que temos na planta produtiva. De certa forma, alguns dos temas já estavam presentes, mas agora são tratados com embasamento, e isso faz a diferença”, relata.  

Cadeias de valor sustentáveis e geração de valor 

O programa também está evidenciando o papel que as grandes empresas podem desempenhar em sua cadeia de valor. Ana Paula, da Isoeletric, conta que a Telefônica Brasil (Vivo) foi o primeiro cliente a falar em mudanças climáticas e a demandar metas de redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE). Desde então, a empresa faz o inventário de suas emissões de GEE e, mais do que isso, faz compra de energia renovável.    

Thomas Carvalho, gerente de PCP e Melhoria Contínua da Isoelectric, também reconhece esse papel exercido pelas empresas que ancoram cadeias de valor, como a Neoenergia em seu setor. Mas acredita que esse movimento precisa ganhar escala e envolver outros clientes e fornecedores, uma vez que a reciclagem do silicone, citando um desafio de sua empresa, poderá encarecer os produtos e serviços da Isoelectric. Nesse sentido, a competitividade da empresa no mercado requer que esse valor seja reconhecido por todo o setor, analisa.  

E mais do que se alinhar à estratégia dos grandes clientes, a transição das PMEs para modelos de negócios mais sustentáveis também é vista como um movimento que gera aumento de reputação entre outros stakeholders, incluindo colaboradores e fornecedores. “Estamos ficando conhecidos não apenas pela nossa competência técnica, mas também pelos nossos compromissos com as questões sociais, ambientais e de governança”, afirma Caixeta.  

As oficinas formativas integram uma das frentes do projeto ‘Ancorando Cadeias de Valor Sustentáveis no Brasil’, realizado pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV EAESP em parceria com a Câmara de Comércio da Espanha e a Câmara Oficial Espanhola de Comércio no Brasil. A iniciativa é co-financiada pelo AL-INVEST Verde, programa da União Europeia para promover o crescimento sustentável e a criação de empregos na América Latina. Saiba mais em: https://eaesp.fgv.br/centros/centro-estudos-sustentabilidade/projetos/ancorando-cadeias-valor-sustentaveis-brasil 

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