“Biomas e cidades não andam separados” ressalta pesquisador
Webinar promovido pelo FGV Cidades discutiu novos caminhos para ações de resiliência à emergência climática
O contexto de emergência climática impõe desafios para as cidades, e as novas possibilidades nas áreas da geoinformação e ciências e dados espaciais podem ser estratégicas quando o tema são as ações de mitigação. Segundo os pesquisadores que participaram do webinar “Cidades e complex(c)idades”, é preciso considerar a diversidade de situações urbanas, existentes na realidade brasileira, para se repensar os modelos de desenvolvimento urbano que se adaptem a esse cenário complexo.
Com mediação de Frederico Ramos (Professor da FGV EAESP e Pesquisador do FGV Cidades), o seminário on-line contou com a participação de Ciro Biderman (Diretor do FGV Cidades), Rafael Pereira (Pesquisador e Chefe de Ciência de Dados do Ipea), Nabil Bonduki (Professor Titular de Planejamento Urbano da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP) e Antonio Miguel Vieira Monteiro (Pesquisador Sênior na DIOTG do Inpe e Coordenador do LiSS).O objetivo era debater como as possibilidades na área da geoinformação e ciências e dados espaciais podem contribuir nas ações de planejamento territorial das cidades e no fortalecimento das ações de adaptação e mitigação dos efeitos da crise climática.
“A enchente do Rio Grande do Sul é, infelizmente, o último exemplo, e provavelmente não será último. A esse cenário de crise climática, somam-se os já conhecidos problemas urbanos que afetam as vidas de milhões de pessoas, como falta de segurança habitacional, carência de infraestrutura básica, poluição, violência urbana, exclusão social e tantas outras dimensões que demandam respostas de governos e da sociedade civil”, destacou Frederico Ramos.
Ciência de Dados Espaciais
Pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Rafael Pereira falou sobre o trabalho de integração e georreferenciamento de dados para avaliação de políticas públicas liderado por ele no Instituto. Por conta dessa atuação, ele foi convidado a integrar um dos grupos de trabalho emergencial, criado no Governo Federal, para lidar com as catástrofes de enchentes no Rio Grande do Sul.
Segundo Pereira, o Ipea tem montado um amplo banco de dados, a partir da integração de registros administrativos do Governo Federal. Com esses dados devidamente identificados, de maneira sigilosa, é possível acompanhar cada cidadão e seus familiares, os serviços públicos acessados ao longo do tempo, nível de renda, inserção no mercado do trabalho, dentre outras.
“Com uma base de dados como essa, multidimensional e longitudinal, a gente consegue criar uma base de dados rica para fazer avaliação e monitoramento de políticas públicas nas mais diversas áreas, destacou.
Segundo o pesquisador, o trabalho tem sido de, com algumas tecnologias existentes, tornar o processamento de dados mais eficiente para lidar com essa massa de dados. “Além dessa infraestrutura para o armazenamento e análise do processamento dos dados, a gente tá fazendo um trabalho de automação da geolocalização desses dados”, explicou.
Programa espacial e urbanização
Para o pesquisador sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Antônio Miguel Vieira Monteiro, é preciso sintonizar o programa espacial brasileiro à agenda das cidades. Ele tem desenvolvido pesquisas, desde 1985, na Divisão de Processamento de Imagens (DPI) do INPE, nas áreas de Geoprocessamento, Sensoriamento Remoto, Geotecnologias em Estudos Urbanos, Bancos de Dados Geográficos e Engenharia de Sistemas Computacionais.
Segundo Monteiro, o contexto da emergência climática impõe uma urgência, que é a de se repensar o planejamento urbano. Um dos desafios, segundo o pesquisador, é a própria readaptação institucional, diante de um mundo cujas transformações são cada vez mais rápidas.
“As complexidades dessas novas realidades que o Brasil tem, cada vez mais urbano, mas que continua num contexto de urbanização incompleta, como dizia o professor Milton Santos. Isso impõe enormes desafios para a gente, porque são processos sociais, cidades, que vivem em ecossistemas, então, biomas e cidades não andam separados”, afirmou.
Urbanização e áreas de risco
Professor da Universidade de São Paulo (USP), Nabil Bonduki ressaltou a importância do planejamento, do monitoramento e fiscalização para evitar a ocupação de áreas de risco, além de programas de desocupação das áreas vulneráveis a eventos extremos.
Segundo Nabil, apesar dos avanços na legislação urbana, com a própria Constituição de 1988 e o Estatuto das Cidades (2001), o país passa, há décadas, por um processo de desmonte das instituições de planejamento urbano, que afeta de forma diferenciada as diferentes cidades. “Temos processos muito desiguais no país, porque a nossa rede urbana é muito diferenciada e as nossas estruturas urbanas também são diferenciadas”, explicou.
Houve, segundo ele, um aumento na ocupação por assentamentos precários, muitos deles, em áreas de risco, justamente as que mais sofrem nos eventos extremos, por se tratar de áreas onde não deveria haver urbanização.
“Temos que montar o sistema de alerta, junto com a Defesa Civil, para que as populações possam escapar da situação emergencial. Mas isso não pode ser uma política definitiva”, afirmou Nabil.
Segundo o pesquisador, é preciso recuperar as regiões afetadas que correspondem a APPs urbanas, ou seja, áreas de preservação permanente, no entorno de cursos d’água, e garantir o acesso à terra para aquelas pessoas que precisam de habitação.
Confira aqui o evento completo
Por Clarissa Viana/FGV Cidades
