Conversas que Transformam com Cristina Sarian
Conversas que transformam são aquelas que mexem em algo profundo dentro de nós. No mês do Dia Internacional das Mulheres, recontamos a história da Cristina Sobral Sarian (CGAE 1994), que recentemente se descobriu empreendedora para além dos anos de mercado financeiro e das cadeiras em Conselhos de grandes empresas e ONGs. Pitty, como gosta de ser chamada, tem buscado reimaginar a segunda metade da sua vida e apoiar tantas outras pessoas que querem percorrer esse mesmo caminho. Na entrevista, exploramos um pouco mais as conexões entre a sua própria vida e o que a levou a fundar a Anthea | Reimagine Midlife.
Por Stephanie Velozo Crispino
O Conversas que transformam traz a história de outra ex-aluna com provocações importantes para pensarmos sobre a vida e seus grandes e pequenos momentos de virada. Como a sua mais recente empreitada à frente da Anthea promove: “E se a segunda metade da vida for, na verdade, um tempo de expansão, liberdade e criatividade?”
Primeiro ato
Logo no primeiro semestre da GV, comecei a estagiar em um banco. Tinha pressa e achava que cada minuto de experiência contava. De manhã banco, à tarde GV, e à noite um terceiro turno, ainda na GV, para um curso de Contabilidade com a PWC. Eu achava tudo aquilo demais, tão cedo já estar fazendo todas essas coisas. Após esse estágio, fui para uma consultoria, a Accenture, mas acabei voltando para o mercado financeiro, onde construí – por 20 anos – uma sólida carreira em análise de investimentos e gestão de portfólios.
Quando a gente pensa em mercado financeiro, sempre vem à mente a coisa do status, do “glamour” e da alta remuneração. Tudo isso aconteceu, sem dúvida, e foi muito bom. Mas foi consequência. O que me motivou nessa fase da minha carreira foi uma combinação de desafio intelectual – estando desde cedo rodeada de pessoas muito inteligentes e sêniores – e a autonomia e liberdade que garantiram, inclusive, a minha independência financeira. Lembro de sentir orgulho de, por um lado, não precisar mais da mesada do meu pai e, por outro, ser uma “pirralha” me reunindo com CEOs de grandes empresas em Nova York e Londres.
Após eu me casar, já não queria mais viajar tanto. E aí vieram os filhos, e muita coisa começou a se mexer. Sou casada há 27 anos, tenho uma filha de 24 e um filho de 20. Após o nascimento de cada um deles, fiquei 2 anos sem trabalhar me dedicando exclusivamente à maternidade. Minhas prioridades mudaram a partir daí. Não quis abrir mão de ser uma mãe presente e, assim, quando decidi voltar ao mercado, em cada uma dessas vezes, consegui alguns empregos que poderia chamar até de “milagrosos” por serem part-time e me darem alguma flexibilidade muito rara na época, ainda mais no mercado financeiro.
Segundo ato
A crise – e primeira virada – começou a aparecer em um cenário engraçado, aos 40 e poucos anos. Era a reunião de ex-alunos do colégio Santa Cruz, no qual estudei, e estávamos em uma roda com cada pessoa contando o que havia construído, onde trabalhava etc...Ouvi pessoas falando de projetos incríveis que tinham desenvolvido no Xingu, de trabalhos em comunidades, de iniciativas de impacto social e ambiental maravilhosas. Foi chegando a minha vez e me vi com uma certa vergonha, iniciei a minha fala com algo tipo “Eu sou do mal, eu trabalho em Banco rsrs”.
Brincadeiras à parte, eu já não via muito sentido no que eu fazia. Crise por falta de propósito. Sentia vontade – e a responsabilidade – de devolver para o mundo um pouco de todo o privilégio que tive, principalmente de poder ter acesso a uma boa educação e a uma carreira de sucesso.
Meu último emprego no mercado financeiro foi em um Family Office, que me abriu portas para participar em Comitês e Conselhos de grandes empresas, como a Raia Drogasil (hoje RD Saúde) e a Klabin. Comecei então a me encantar com a economia real, com aquilo que acontecia para além das células que eu projetava nas planilhas de Excel. Eu, que gostava da pesquisa e da introspecção de área de Research, de repente me vi trabalhando mais com estratégia, com pessoas e gostando muito disso.
A partir daí, fui também para o Conselho de ONGs, comecei a estudar investimentos de impacto, e me apaixonei por sustentabilidade. Pedi demissão do Family Office e consegui ressignificar o meu passado – que afinal me dava um lugar na mesa para influenciar as empresas em direção a práticas mais sustentáveis. Sentar no Conselho de grandes empresas e influenciá-las no sentido de melhores práticas sociais e ambientais trouxe novo oxigênio para minha vida profissional. Foram inúmeras batalhas, acompanhadas sempre de muita convicção e resiliência. Tenho orgulho de ter plantado boas sementes por onde passei.
Terceiro ato
E fiz isso por outros 12 anos, feliz. Por volta dos 50, quando tirei um pouco o pé do acelerador, comecei a me perguntar: E aí, o que mais? O que mais é a vida? Uma busca até mais filosófica que surgiu ao me permitir o silêncio e o espaço para pausar e refletir: O que a gente pode fazer na segunda metade da vida? O que EU quero fazer? O que eu quero SENTIR?
Lembro de uma entrevista que fiz nessa época para ser conselheira de uma grande empresa. Ao final da conversa, o Chairman que me entrevistava disse: “você tem muitas paixões” – e isso não era um elogio. “Precisa escolher uma coisa, quer que eu lembre de você como a pessoa de Finanças, de Sustentabilidade, de Desenvolvimento Humano ou o quê?”. Foi muito libertador perceber com muita clareza que eu não queria caber em uma só caixinha. Que ser curiosa é uma coisa boa demais, e que vou sempre estar me desenvolvendo e expandindo. Ficou claro que eu quero poder experimentar outras formas de ser e estar no mundo. E estar rodeada de gente que ache isso uma qualidade, e não um defeito.
Saí de novo explorando e refletindo, viajando, fazendo inúmeros cursos (nunca parei de estudar) e trabalhando muito meu autoconhecimento e desenvolvimento interior. Uma luz interna se acendeu quando percebi que aquilo que estava me alimentando também poderia nutrir outras pessoas. Ser produtiva de outras maneiras, contribuindo para o mundo, me mantendo viva, interessante e interessada. E mais do que isso: ajudando pessoas a continuarem os seus próprios movimentos. Ser o exemplo vivo de recomeços possíveis.
E foi assim que fundei, no ano passado, a Anthea | Reimagine Midlife. Nunca na minha vida eu tinha pensado em empreender. Mas tomei coragem e comecei – para poder oferecer um olhar que amplie o campo de possibilidades das pessoas na segunda metade da vida – para ninguém ficar preso a um roteiro único. Precisamos renegociar principalmente o quanto somos fiéis às expectativas dos outros e ser mais fiéis a nós mesmos(as) à essa altura da nossa jornada. Aproveitar a chance de um novo ato para desenhar com ainda mais consciência e autoria a nossa própria história. É isso que fazemos na Anthea, através de programas como o Novos Rumos e o Entre Tempos.
A FGV para mim é…
Um começo muito sólido, um selo de qualidade capaz de abrir muitas portas.
E o encontro com uma amiga muito querida, que certamente me acompanhará até o fim da vida.
O que ficou para nós:
Entre expectativas externas e escolhas pessoais, surgem dilemas que revelam algo muito humano: o processo de perceber que temos, sim, a liberdade de escolher o caminho profissional que queremos seguir. Ainda que isso, às vezes, implique atravessar crises e revisitar papéis que pareciam dados ou naturalizados. Minha reflexão esse mês é sobre o poder de escolha e, com isso, sobre nossa autoria sobre a vida. Por Rosa Souza Lima
Tirar o pé do acelerador é fundamental se quisermos criar novos imaginários possíveis e sair da armadilha do perigo de uma história única, como bem coloca a Chimamanda Adichie no seu Tedx, para o qual eu volto muitas e muitas vezes. Tudo começa nessa pausa e no silêncio de uma pergunta para a qual ainda não temos resposta. Fico aqui me perguntando qual é a pergunta desse ato da minha vida. Por Stephanie Crispino.
Deu vontade de conversar e trocar histórias?
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E-mails para se voluntariar para uma entrevista: rosa.souzalima@gmail.com e svcrispino@gmail.com
