Primeiro dia de lançamento do FGVEarth destaca liderança do Sul Global contra crise climática

Evento reuniu líderes da academia, governo e empresas para debater como acelerar a agenda da COP30

O primeiro dia de lançamento do Centro de Inovação, Pesquisa e Difusão (CEPID) em Governança das Mudanças Ambientais Globais (FGVEarth) promoveu um debate, na manhã de 10 de setembro, em São Paulo, com representantes dos setores público, privado e acadêmico sobre liderança para governança e inovação na ação climática.

Na abertura do evento, o Coordenador do FGVEarth, José Antônio Puppim, destacou que a proposta do novo centro não é apenas produzir conhecimento, mas disseminá-lo para qualquer interessado em aplicar esses saberes.

“Nosso centro conta com mais de 30 pesquisadores distribuídos em seis áreas de pesquisa: Instituições para Inovações; Práticas de Negócios; Economia Ambiental; Marketing e Comportamento do Consumidor; Liderança; e Cidades.”

O Coordenador do Centro de Estudos do Agronegócio (FGVAgro), Guilherme Bastos, também participou do evento e ressaltou a possibilidade de sinergia entre os dois centros, dada a importância de considerar os impactos das mudanças climáticas na agricultura e sua relação com a segurança alimentar.

Justiça climática e liderança do Sul Global na agenda do clima

O primeiro painel reuniu lideranças do Brasil, Colômbia e África do Sul para dialogar sobre corporações e governança ambiental global. A moderação ficou por conta da Coordenadora do Mestrado em Sustentabilidade da Universidad EAFIT (Colômbia), Maria Alejandra Gonzalez-Perez.

Em sua apresentação, Gonzalez-Perez destacou a trajetória de aquecimento do planeta, que, embora tenha mostrado avanços desde 2015, ainda aponta para um cenário preocupante:

“Estamos em uma rota de 2,6°C a 2,8°C de aumento de temperatura até 2025, distante da meta de 1,5°C estabelecida pelo Acordo de Paris”, alertou.

Segundo a especialista, a situação é ainda mais crítica no que diz respeito à implementação. Das 1.500 políticas climáticas globais analisadas, apenas 63 resultaram em reduções significativas de emissões. Além disso, há um déficit financeiro anual de US$ 6,3 trilhões para viabilizar a transição climática, evidenciando a distância entre os compromissos assumidos e sua execução real.

Gonzalez-Perez alertou que essa realidade é ainda mais desafiadora no Sul Global, citando obstáculos como a desproporcionalidade das vulnerabilidades climáticas, limitações institucionais e barreiras ao acesso a financiamento.

Ela apresentou um “reality check” dos compromissos climáticos (NDCs) dos países, demonstrando que, enquanto Reino Unido e Colômbia se destacam como líderes, com metas ambiciosas e benefícios colaterais à saúde, outros países como México e Austrália foram apontados como retardatários, por retrocessos ou falta de atualização. Já China, Índia e União Europeia, responsáveis por 67% das emissões globais, ainda não apresentaram avanços significativos, permanecendo como peças-chave ausentes no tabuleiro climático.

A dimensão internacional da liderança climática também foi abordada sob a ótica da justiça financeira. Gonzalez-Perez denunciou que menos de 3% dos recursos climáticos chegam aos países menos desenvolvidos, e apenas 1% é destinado à adaptação local. Os processos de aprovação de financiamento são lentos e burocráticos, levando em média de dois a três anos, enquanto os países em desenvolvimento já enfrentam perdas anuais entre US$ 290 e US$ 580 bilhões.

A especialista defendeu uma abordagem de governança centrada na justiça climática, que leve em conta três dimensões: distributiva (quem paga e quem se beneficia), procedimental (quem participa das decisões) e de reconhecimento (cujo conhecimento é valorizado). Ela destacou a vulnerabilidade interseccional de grupos como mulheres, povos indígenas, comunidades rurais, populações urbanas pobres e as futuras gerações, que deveriam estar no centro desses debates.

Por fim, apresentou propostas para reformar a arquitetura financeira climática, com foco em acesso direto aos recursos, procedimentos simplificados, orçamentos controlados pelas comunidades e pagamentos baseados em desempenho. Segundo Gonzalez-Perez, 2025 será um “momento da verdade” para a ação climática global, com eventos decisivos como a COP30 no Brasil e a revisão dos compromissos dos maiores emissores.

“O mundo está diante de uma bifurcação: seguir no caminho do ‘business as usual’, com impactos acelerados e perda de confiança na governança, ou iniciar uma revolução na implementação, com justiça no centro das decisões e inovação em escala”, declarou.

A apresentação de Gonzalez-Perez foi seguida por um discurso do Climate High-Level Champion para a COP30, Dan Ioschpe, que ressaltou a necessidade de colaboração entre academia, formuladores de políticas públicas e empresas para “promover o início de uma nova era de implementação, em que saímos de promessas e entramos em ações”.

Empresas como agentes de transformação climática

Em seguida, a Gerente de Serviços de Sustentabilidade para a América Latina da DNV, Caroline Passuello, apresentou sua perspectiva sobre como as empresas podem contribuir para combater as mudanças climáticas.

“Estamos muito próximos de um ponto de não retorno, e ele está chegando rápido. Se existe um ano para agir, esse ano é agora”, introduziu Passuello.

Ela reconheceu a complexidade do problema climático, mas reforçou que há caminhos possíveis, baseados em colaboração e cooperação entre setores. Segundo a gerente, as empresas têm um enorme potencial de influência, não apenas por seus recursos financeiros, mas também pela capacidade de mobilizar pessoas, tecnologias e cadeias produtivas.

Um dos principais pontos levantados foi o papel das corporações no financiamento de projetos de descarbonização e na busca pela neutralidade de emissões. Parte desses investimentos deve ser direcionada ao desenvolvimento de novas tecnologias e à inovação sustentável.

Ela também destacou o impacto das cadeias de suprimentos, responsáveis por cerca de 80% dos impactos ambientais das empresas no mundo:

“As empresas precisam olhar para além de suas operações diretas. A maior parte dos impactos está na cadeia de suprimentos, e é aí que está a maior oportunidade de transformação”.

A executiva abordou ainda o papel da inteligência artificial como aliada na gestão sustentável, especialmente no uso de dados para mapear e otimizar cadeias de suprimentos. Reforçou também a importância da transparência como valor central na comunicação com stakeholders:

“Transparência é fundamental. As empresas precisam se comunicar de forma clara e honesta com todos os seus públicos para construir confiança e gerar impacto real”.

Passuello incentivou ainda um debate mais profundo sobre como as empresas brasileiras e de outros países do Sul Global podem liderar soluções climáticas adaptadas às suas realidades, com protagonismo, inovação e justiça socioambiental.

Após sua apresentação, teve início o debate com o Diretor Executivo da IFFCO Nanoventions Brasil e Presidente do Conselho da NANOFERT, Ritesh Sharma, e o Presidente da Câmara de Comércio Afro-Brasileira (AfroChamber), Rui Mucaje.

Inovação e transição verde

O Especialista em Cidades Inteligentes, Cenários Urbanos Futuros e Políticas Públicas, Gabriel Figueiredo, iniciou o segundo painel do evento, focado em inovação e transição verde. Ele apresentou iniciativas de inovação nas indústrias com foco na região amazônica e ressaltou o potencial do Brasil voltado ao uso da biomassa para combustíveis.

Em seguida, o Cônsul Geral Honorário da Suécia no Brasil, Renato Pacheco Neto, apresentou formas pelas quais a Suécia pode colaborar com o Estado de São Paulo para promover a sustentabilidade, em parceria com empresas suecas que atuam no Brasil.

Segundo o Cônsul, a Suécia foi o primeiro país a instituir o imposto de carbono e sempre esteve na vanguarda do pioneirismo em pensar a mudança climática também pela comercialização do carbono:

“Temos um mercado regulado para o mercado de carbono, e o Brasil está passando por esse processo agora, então é importante promover essa troca de experiência”, declarou.

Pacheco Neto também reiterou a importância do papel da FGV nesse debate:

“O espaço acadêmico nos coloca em um nível de neutralidade, por isso é importante esse espaço que a FGV abre, e a Suécia quer colaborar”.

As apresentações foram seguidas de um debate moderado pelo Coordenador do Comitê de Auditoria do Pacto Global da ONU (Rede Brasil), Fabiano da Rosa, com a participação do Assessor Internacional do Governo do Estado de São Paulo, Mauro Kiithi Junior.

O evento terá continuidade no dia 11 de setembro, às 16h, com o lançamento oficial do FGV Earth e a apresentação das suas linhas de pesquisa.

Matéria escrita por: José Victor Sales de Carvalho

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