O legado de Donald Shoup para a mobilidade urbana
Por Ciro Biderman
Em 6 de fevereiro de 2025, aos 86 anos, Donald Shoup nos deixou. Ele era professor emérito de planejamento urbano da UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles) e dedicou sua vida a evidenciar o preço que a sociedade paga por dar prioridade ao carro na mobilidade, no planejamento urbano e no uso de recursos. Ele não só questionou esse custo, mas propôs caminhos alternativos e sugestões de política pública para resolver o desafio da mobilidade.
O professor Shoup integrou ao planejamento urbano a contribuição teórica de William Vickrey (Prêmio Nobel de Economia em 1996) sobre a socialização de efeitos negativos do transporte motorizado individual, e a formulação da urbanista e ativista Jane Jacobs sobre os efeitos sociais perversos de, nas cidades, cedermos o espaço das pessoas aos carros.
Grande comunicador, ele evidenciou a correlação entre priorização do carro e piora do transporte público coletivo e ativo, segregação social e decadência urbana. Seu livro The High Cost of Free Parking (Routledge, 2005) mudou nosso olhar sobre uma decisão aparentemente inofensiva: a exigência de vagas de estacionamento. Presente nas regulações de zoneamento e planejamento urbano nas cidades brasileiras e no mundo, essa exigência dificulta a oferta de moradia social e reduz a vitalidade urbana.
Sua luta esteve pautada por dois princípios que integram o DNA do FGV Cidades: 1) pesquisas orientadas por evidências e 2) vinculação dessas preocupações com incidência e recomendações factíveis de políticas públicas.
Exemplo disso são propostas simples e claras como a cobrança pelo uso do espaço público para estacionamento privado de veículos, o investimento desse recurso na vitalidade dos bairros e a mudança de valor mínimo para máximo na exigência de vagas de estacionamento nos empreendimentos imobiliários.
São Paulo apresenta hoje uma perigosa tendência: o aumento expressivo do uso de transporte privado em detrimento dos modos coletivos e ativos. Na contramão da urgência climática, essa situação se explica por uma clássica frase do professor Shoup “good politics, bad policies”. A melhor forma de honrá-lo é aplicar seus ensinamentos nas decisões de políticas públicas e avançar rumo a uma mobilidade urbana sustentável centrada nas pessoas.
