Revistas
Autor(es): L.L.B. Lazaro , L.L. Giatti , A.F. Simoes , A. Giarolla , P.R. Jacobi , Jose A. Puppim de Oliveira

O lobbying tem sido objeto de investigação acadêmica há décadas e é amplamente reconhecido como um componente legítimo e de longa data da governança democrática e do processo de formulação de políticas. Não sendo inerentemente bom nem ruim, o valor democrático do lobbying depende de sua transparência, responsabilidade e alinhamento com o interesse público. Quando é opaco ou não transparente, o lobbying levanta sérias preocupações sobre assimetrias de poder, influência indevida, questões de justiça e erosão do interesse público. Este artigo examina a atividade política de empresas de bioenergia no Brasil, um ator-chave nos debates globais sobre a transição para energias de baixo carbono. Para tanto, desenvolvemos inicialmente um arcabouço analítico baseado em uma revisão da literatura científica sobre lobbying e atividade política corporativa (APC) de 1970 a abril de 2025. Esse arcabouço inclui quatro dimensões: perspectivas estratégica-instrumental, crítica, normativo-ética e política, orientadas para a responsabilidade social corporativa e a governança. Utilizando essa estrutura, analisamos como as empresas brasileiras de bioenergia se envolvem na dinâmica política, examinando relatórios de sustentabilidade, documentos corporativos, artigos da mídia, documentos governamentais e publicações de ONGs no período de 2007 a 2020. Para a análise dos dados, aplicamos técnicas de modelagem de tópicos e processamento de linguagem natural (PLN), especificamente BERTopic e Alocação Latente de Dirichlet (LDA). Nossos resultados revelam que essas empresas coordenam ativamente seu engajamento político, principalmente por meio de associações do setor, como a União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (UNICA), e se beneficiam do apoio do Grupo Parlamentar do Agronegócio, dado seu perfil voltado para o agronegócio e interesses regulatórios compartilhados. Suas estratégias políticas estão inseridas em poderosos imaginários e discursos sociotécnicos que enquadram a bioenergia como uma solução para as mudanças climáticas, a segurança energética e o desenvolvimento rural. No entanto, essas narrativas permanecem contestadas, principalmente em relação às preocupações socioambientais. Este estudo contribui para a compreensão do lobby corporativo nas transições para a sustentabilidade, mostrando que o lobby é uma parte fundamental do processo político, que tanto molda quanto é moldado por disputas sobre o futuro da energia.

Artigo publicado em inglês.