Revista Página22 :: ed. 56 (setembro/2011)

Setembro, 2011

EDITORIAL - Nós e o copo de chá

Nada é completo, nada é perfeito, nada é permanente. Ao conjunto dessas três visões de mundo dá-se o nome de wabi-sabi, estética japonesa que cultiva a beleza do transitório, do inacabado, do assimétrico, do irregular. A ética dessa estética reúne o simples, o austero, o singelo, a modéstia, a finitude.

Valores que parecem tão distantes para uma cultura ocidental que levou às últimas consequências a estética grega, admiradora da perfeição e da simetria das formas. Sobre as colunas greco-romanas acabamos construindo de forma distorcida um ideário perverso, que faz o homem buscar tantos superlativos, a ponto de negar o curso natural da vida, em especial a mortalidade.

Assim, erigimos uma civilização do exagero, com o homem no centro de tudo buscando a todo tempo o controle da situação. O super-homem que altera e domina a natureza, que guarda as chaves da juventude, que se julga um herói capaz até de “salvar o planeta”.

Mas é em um copo de chá rústico, de superfície rugosa, que se encerra a sabedoria wabi-sabi. A cerâmica do copo um dia se quebrará, e seu conteúdo tomará outros formatos, posto que é líquido.

Nesta edição de quinto aniversário, que mais ainda nos faz pensar sobre a passagem do tempo, Página22 inspira-se no wabi-sabi para trazer provocações a uma sociedade que a cada dia está mais envelhecida, mas valoriza como nunca o jovem, a perfeição do corpo, o novo e o eterno.

Entretanto, como nada é permanente, há espaço para mudanças de visão, e quem sabe esse resgate oriental tenha muito a nos ensinar.

Boa leitura!

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