
EDITORIAL - Uma nova economia de fato
Há mais de dois anos, na edição 31, levantamos um questionamento de Tim Jackson (autor de Prosperidade Sem Crescimento?) sobre a efetividade ecológica da chamada economia verde. Nesse estudo, o líder do grupo econômico da Comissão de Desenvolvimento Sustentável do governo britânico atentava para o fato de que o ganho de eficiência promovido por avanços e inovações tecnológicas, com produtos que gastam menos energia e empregam recursos renováveis ou menos matéria-prima não levaria a menores emissões de carbono, pois a poupança obtida com a redução acaba empregada no aumento de consumo de outros produtos ou atividades – é o efeito ricochete.
De fato, as emissões não caíram nos últimos tempos. Voltamos ao assunto nesta edição, que trata de desconstruir algumas “ideias prontas”, como a da eficiência como uma opção por si só salvadora. Estudos recentes, citados no The New York Times, indicam que o efeito ricochete seria tão intenso a ponto de anular os esforços. Trata-se de uma informação de peso. A eficiência e o combate ao desperdício continuam dignos de louvor, mas só funcionam em um sistema integrado que coloque o consumo como nó central. Isso significa mudança de comportamento e, sobretudo, valores. Enquanto a eficiência for usada para simplesmente permitir maior consumo, a economia verde não passará de um business as usual pintado com essa cor e o problema climático será insolúvel.
O filósofo francês Luc Ferry disse recentemente ao Valor Econômico que o capitalismo está mais arrogante que nunca (o que foi aprendido desde a última crise financeira, e com mais uma crise batendo à porta?) e que, se houve alguma mudança provocada pela contracultura dos anos 60, esta se deu no campo moral – flexibilizado para introduzir as massas na sociedade de consumo.
O século XXI pode apropriar-se do discurso da sustentabilidade para reempacotar o ideário do consumo hiperbólico, ou inaugurar uma economia sobre novas bases e valores, que seja de fato verde. A vantagem é que a revolução moral nos deu liberdade de escolha.
Boa leitura!




















