
EDITORIAL - O início do começo
A televisão em cadeia nacional registrou a emoção de uma senhora, moradora do Complexo do Alemão, quando a bandeira brasileira foi fincada no alto do morro, após a derrocada dos traficantes. É como se a sua dignidade tivesse sido resgatada, o seu território recuperado, a sua identidade devolvida. Reviveu-se também a esperança de que a polícia retome sua única função, que é a de proteger as pessoas de bem.
Foram essas pessoas, acenando panos brancos em meio ao tiroteio, que deram a chancela e o apoio para a ação da polícia, em uma coesão fundamental que é a base da construção de qualquer identidade. E assim, por um instante, o Brasil saboreou a alegria de um Rio de Janeiro paradisíaco combinada com a segurança da civilidade e da ordem.
Por um momento. Os bandidos fugitivos provavelmente voltarão a se organizar em outros territórios, e buscarão formas de se recapitalizar. O sistema da criminalidade e do tráfico, se hoje foi atingido em cheio, possui ramificações que certamente vão tentar se articular. As milícias ocuparão espaços. O consumidor continuará alimentando o tráfico. O filme Tropa de Elite 2 bem mostrou como essa rede funciona. A bandeira fincada no topo do morro, amparada pelas suas bases, é apenas “o início do começo”. Há muito trabalho de reconstrução pela frente.
Mas as histórias na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão mostram que o morro, coeso, sabedor do que quer, tem vez. Neste final de novembro, Página 22 fecha a edição da virada de ano inspirada na emoção daquela moradora que teve sua identidade resgatada. Ela é só uma entre os 190.732.694 habitantes unidos por uma língua e um território, mas dá a cara de um Brasil capaz de alcançar e garantir sua felicidade, caso sonhe em conjunto.
Boa leitura!




















