
EDITORIAL - (Des)envolva-se
As grandes questões da atualidade referem-se à ideia de desenvolvimento. Mas, desta vez, vamos tratar de envolvimento. Há mais que um jogo de palavras aí, pois do engajamento em torno de causas essenciais é que se pode buscar uma evolução mais do que social – uma evolução humana.
A revista Science acaba de publicar um estudo confirmando o que já se temia: não apenas os países signatários da Convenção sobre Diversidade Biológica descumpriram as metas de conservação estabelecidas para 2010, como, na qualidade de espécie humana, protagonizamos a mais veloz e avassaladora destruição da vida na Terra. Não é algo que possa dignificar nossos currículos de Homo sapiens.
Entendendo a vida como o mais essencial dos valores, atravessamos uma crise ética de ampla dimensão em relação ao outro e ao próprio eu, já que a vida é uma teia interdependente. Talvez a questão prática e mais desafiadora seja como ligar essa constatação científica com a emoção que nos faz levantar da cadeira e agir.
No Brasil, por exemplo, um dos mais questionáveis empreendimentos em discussão deve ser avaliado, sobretudo, do ponto de vista ético. A Bacia do Rio Xingu, onde se pretende construir a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, abriga uma diversidade de peixes quatro vezes maior que a existente em todo o continente europeu, e a questão ainda é maior que esta. O projeto atinge em cheio populações indígenas, comunidades locais, florestas, um equilíbrio fino da vida em seus variados aspectos sociais, culturais, religiosos e biológicos.
O argumento usado a favor da usina, de que ela se presta ao bem geral da nação, exemplifi ca um questionamento de Clóvis de Barros Filho, em entrevista à página 10. Por que o suposto bem de uma maioria justifi caria a perda irreparável de uma minoria, como a indígena? A quantidade expressa em uma maioria vale mais que uma singularidade local? Quem defi ne esses pesos? Esse é mais um dilema ético, que requer envolvimento e discussão apaixonada.
Boa leitura!




















