• Competitividade Internacional

Luis Fernando Gonçalves, formado em 2007, Vice-Presidente Sênior e Gerente Geral da Dell EMC Brasil comenta algumas transformações do setor de tecnologia e as perspectivas de carreira no segmento depois do MPA.

07.06.2018

Você tem uma longa trajetória no setor de tecnologia aplicada aos negócios. Quais foram as principais mudanças que observou no setor nos últimos anos e como elas nos ajudam a entender o que vem pela frente?

Atualmente o investimento mundial em TI empresarial gira em torno de US$ 2.5 trilhões. Por quase 50 anos esse investimento foi predominantemente aplicado em eficiência operacional. Nesse caso, para fazer mais em menos tempo e mais barato, sem ter que repensar a estratégia. Foram os anos da reengenharia, downsizing e outsourcing, ERP e BI.

Nas últimas décadas a tecnologia se tornou acessível a todos, a fronteira da eficiência operacional foi alcançada por quase todos e deixou de ser um diferencial competitivo.  Atualmente o custo de se incorporar algum componente inteligente nos produtos ou serviços tende a zero. E eles estão sendo embarcados em praticamente tudo que conhecemos: utensílios domésticos, instalações prediais, automóveis, relógios, celulares, máquinas e equipamentos. Com toda essa capacidade, em 15 anos, será possível decodificar um genoma em menos de 2 minutos por menos de 1 dólar. Imagine o impacto disso no custo da saúde pública e bem-estar dos cidadãos. Em menos de 20 anos o computador será capaz de operar na mesma velocidade que o cérebro humano, viabilizando veículos autônomos e a automação de atividades com habilidades cognitivas discretas e limitadas.

Se as eras industriais anteriores foram movidas por carvão, petróleo e eletricidade, esta nova era será movida por dados, redefinindo o mundo dos negócios e reinventando o nosso futuro.  Serão mudanças incríveis. A isso chamamos de Transformação Digital. Percebemos o mundo digital a nossa volta, mas ainda não estamos totalmente conscientes de que estamos vivendo uma época de mudanças sem precedentes. Talvez essa seja a oportunidade de nossa geração

E quais são as oportunidades e os desafios para o Brasil no campo de tecnologia aplicada aos negócios comparado com outros países na qual a Dell atua?

Especificamente em termos dos desafios digitais temos infraestrutura de telecomunicações insuficiente, escassez de mão de obra qualificada, mercado de capitais tímido para alavancar o empreendedorismo digital, marco regulatório incipiente e falta de um projeto nacional de transformação digital. Do outro lado da equação o Brasil é uma das maiores economias do mundo com um enorme e atrativo mercado, potencial de desenvolvimento, riquezas naturais abundantes e diversificadas, e papel geopolítico relevante.

No futuro, os bens e serviços serão envoltos por sistemas inteligentes de engajamento e relacionamento com clientes, ou melhor, usuários; com a cadeia produtiva integrada; e os colaboradores das firmas que os produzem. Estes sistemas capturarão em tempo real dados que servirão para o aprimoramento dos bens e serviços de forma continua e evolutiva. Os ativos mais valiosos das empresas e das economias nacionais serão seus dados. E extrair insights destes dados em tempo real será uma função estratégica na ordem organizacional.

Na função econômica das nações, o peso do fator associado ao conhecimento tecnológico será cada vez mais relevante. E por sua natureza virtual, poderá ser transferido de forma ainda mais fluída do que o capital. Países que adotarem uma agenda com ênfase em educação de ciências em geral da computação em particular, poderão ter êxito e relevância neste cenário.

A Dell recentemente produziu um amplo relatório sobre as perspectivas dos executivos para a integração entre homens e máquinas. Quais são os principais desafios apontados? As empresas brasileiras estão preparadas? E em termos do impacto no mercado de trabalho para executivos, quais são as oportunidades e os riscos gerados por essa maior integração?

A Dell EMC patrocinou um estudo elaborado pelo Institute for the Future (IFTF), voltado a mapear como as tecnologias mudarão a sociedade até 2030. O relatório estima que na próxima década, a tecnologia assumirá um papel central em todas as organizações e os negócios, exigindo que as empresas repensem os seus modelos atuais de infraestrutura e formas de trabalho. O estudo sugere que as capacidades humanas serão estendidas e ampliadas através de tecnologias emergentes como Inteligência Artificial, Realidade Virtual e Aumentada, robótica, Internet das Coisas e computação na nuvem. As implicações no mercado de trabalho serão enormes. O estudo prevê que o mercado de trabalho passará por uma grande mudança, e que até 2030 aproximadamente 85% das profissões serão totalmente novas, ou seja, ainda não foram inventadas.

As pessoas e as empresas que não se prepararem desde agora para esse novo mundo dificilmente terão espaço no mercado. Esse e outros estudos na mesma linha servem para nos orientar, na Dell EMC, no desenvolvimento de soluções tecnológicas pensadas para suportar as empresas nessa jornada que já se iniciou.

Após você cursar o MPA você assumiu posições importantes no Chile e depois no México. Como o curso contribuiu para essa trajetória?

O MPA teve uma grande contribuição em toda a minha carreira. E eu poderia enumerar diversos fatores como a concepção do programa, o excelente corpo docente, o processo de seleção da turma, a infraestrutura da FGV, a seleção bibliográfica, o rigor na execução programática, as extensões internacionais e tantos outros, que combinados, sintetizam o alto padrão qualitativo da instituição.

Ressalto, no entanto, dois aspectos que ainda causam impacto. O MPA, não se pautou por receitar prescrições acadêmicas aos desafios empresariais e organizacionais. O MPA se pautou por discutir o repertório de opções, fomentando o surgimento de adaptações e novas versões que emergiam da mescla das alternativas anteriores. O rigor acadêmico, emprestava sua metodologia e compromisso com a ciência, para estabelecer processos analíticos e dialéticos que levavam ao conhecimento, e sobretudo à descoberta.

Derivado desse processo o aluno era continuamente instigado a abrir a sua mente para considerar também outras alternativas existentes ainda não discutidas, e mensurar e tolerar os riscos associados às alternativas emergentes. No ambiente de trabalho isso também se traduz em: trabalho em equipe, diversidade, tolerância, mente aberta, apetite ao risco, o “olhar” de fora para dentro, e tantas outras abordagens que são valiosas e que exigem prática.

Quando você pensa em recrutar um executivo para uma posição sênior, quais são as principais características que você busca? Por que?

Acima de tudo busco identificar o alinhamento de valores e princípios. As competências técnico-funcionais podem ser avaliadas com bastante precisão e mesmo os soft skills podem ser validados. Os valores e princípios, são ainda mais relevantes quando se identificam profissionais com excelentes perfis técnico-funcionais e com soft skills bem desenvolvidos. Se um candidato aos cargos de liderança não compartilha os mesmos valores e princípios da organização, eles enfraquecerão a companhia e podem prejudicar a si mesmo e aos outros. Por essa razão, quanto maior a responsabilidade, maior a exigência no alinhamento com valores e princípios.

Estamos cientes das transformações à nossa volta e usando a tecnologia, promovemos a discussão aberta sobre valores e princípios com nossos colaboradores e ecossistema operacional, seja para validá-los e celebrá-los de forma ainda mais contundente ou mesmo revisá-los se necessário.

Se você é ex-aluno e gostaria de compartilhar sua trajetória profissional após o MPA, mande um e-mail para mpa.info@fgv.br

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