- Sustentabilidade
Lançamento de livro reúne pessoas atingidas pelo rompimento da barragem da Samarco em ato de memória e resistência








Obra "É como perder um ente querido" nasce de um acervo de aproximadamente 10 mil fragmentos narrativos coletados pelo FGVces. Lançamento é acompanhado pela disponibilização do Banco de Narrativas das Pessoas Atingidas pelo Rompimento da Barragem de Fundão
O Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces) e a editora Hucitec realizaram em novembro o lançamento do livro É como perder um ente querido: histórias de rio e de mar das populações atingidas pelo rompimento da barragem da Samarco.
O evento, marcado por forte emoção e denúncia, reuniu lideranças comunitárias para debater não apenas a publicação, mas a luta contínua por reparação uma década após o rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana (MG), em novembro de 2015. Compuseram a mesa de debates: Luciana Souza de Oliveira, atingida de Regência (ES), Olindina Serafim, atingida da comunidade quilombola de São Domingos, no território de Sapê do Norte (ES), Marlene Imaculada Carlos, atingida do município de Marliéria (MG), Maria Cecilia Alvarenga de Carvalho, pesquisadora do FGVces, e Mario Monzoni, professor da FGV EAESP e coordenador do Projeto Rio Doce pelo FGVces. O evento foi coordenado e apresentado por Mariana Machini, pesquisadora do FGVces e integrante do projeto. Assista à gravação do evento aqui.
A obra nasce de um extenso trabalho de campo realizado pelo FGVces no contexto de um acordo firmado em 2017 entre o Ministério Público Federal e o Ministério Público de Minas Gerais com a mineradora Samarco Mineração S/A, que operava a barragem, e com a Vale S/A e a BHP Billiton Brasil Ltda, suas sócias-controladoras. Esse acordo teve como propósito garantir respaldo técnico-científico para a imposição da reparação integral dos danos causados pelo desastre.
Em vista do acordo, as empresas envolvidas Vale, BHP e Samarco comprometeram-se a custear a contratação de assessores técnicos para apoiar o Ministério Público Federal na realização de diagnósticos e valoração dos danos socioeconômicos decorrentes do desastre.
Ao longo desse processo de identificação e mensuração dos danos socioeconômicos provocados pelo rompimento da barragem, foram coletados mais de 10 mil fragmentos narrativos sobre o maior desastre socioambiental do Brasil e um dos maiores do mundo.
A escuta como método científico
Ao abrir a mesa, Mariana Machini destacou a generosidade das pessoas que se envolveram com o projeto e compartilharam suas histórias. "Queria agradecer principalmente a todas as pessoas atingidas que disponibilizaram muito do seu tempo, da sua energia e da sua confiança e, junto com a gente, contaram suas histórias, que deram origem a esse livro", afirmou a pesquisadora.
Mario Monzoni explicou o contexto de criação do livro e ressaltou o desafio acadêmico e político de validar a pesquisa qualitativa e a escuta ativa como ferramentas centrais para mensurar os danos do desastre.
"Nós montamos uma equipe que tinha que honrar uma premissa muito cara, que era a centralidade das pessoas atingidas. O nosso trabalho era fazer um diagnóstico a partir das vozes daquelas pessoas", explicou Monzoni. Sobre o lançamento da obra física, ele completou: "As vozes agora não estão mais num relatório técnico que vai estar lá no site do Ministério Público. Agora a gente joga esse filho pro mundo."
O rio como ente querido
O painel central foi composto por três lideranças femininas de diferentes territórios, que trouxeram a dimensão humana e devastadora do crime ambiental.
Luciana de Oliveira, de Regência (ES), emocionou o público da livraria Tapera Taperá, onde ocorreu o lançamento do livro, ao explicar o título do livro. Para ela, a perda do Rio Doce é uma dor que não cicatriza. "Perder um ente querido é todo dia reviver essa dor. É entender que nada será como antes. O rio sempre esteve na nossa vida, ele corre em nós, ele está no nosso DNA", disse Oliveira. Ela também criticou a invisibilidade imposta às comunidades pesqueiras: "O rompimento da barragem mostrou para nós também o quanto nós estamos invisíveis para quem está nos lugares de governança."
A invisibilidade também foi o tema de Olindina Serafim, quilombola do território do Sapê do Norte (ES) e educadora. Ela relatou como o modo de vida quilombola, intrinsecamente ligado à natureza, foi impactado pela contaminação das águas. "O que os quilombolas da bacia do Rio Doce perderam foi o seu maior ente querido, que é a água. Perdemos o direito de pescar, de plantar e colher", afirmou Serafim.
Representando a agricultura familiar, Marlene Carlos, da comunidade do Celeste, em Marliéria (MG), trouxe um relato contundente sobre a perda da autonomia alimentar e financeira. Marlene criticou duramente os processos de indenização e a recente repactuação, que classificou como injusta. No entanto, encerrou com uma mensagem de resiliência baseada no saber da terra. "Quem tem um pedaço de terra e sabe trabalhar nela sabe que não vai ser uma Samarco, não vai ser uma Vale, não vai ser uma BHP que vai deixar a gente perecer. Porque nós sabemos trabalhar e nós temos força e temos coragem", declarou.
Dever de memória
A mesa contou ainda com a participação de Maria Cecília Alvarenga de Carvalho, pesquisadora e autora do livro O dia em que o rio correu para trás. Ela analisou a obra lançada sob a ótica do testemunho e do trauma, comparando a necessidade de registro de pessoas atingidas à de sobreviventes de grandes catástrofes históricas.
"Sem memória não há dano. Sem memória nem há rompimento. A gente precisa falar desses danos para que eles possam ser reparados. E frente àquilo que não comporta reparação, a gente precisa trazer isso para o Tribunal da História", pontuou a pesquisadora.
O livro É como perder um ente querido pode ser adquirido na versão impressa ou acessado gratuitamente em PDF no site da Hucitec. Acesse aqui.
Um acervo vivo: O "irmão" digital do livro

Além da obra física, o evento marcou a disponibilização pública do Banco de Narrativas das Pessoas Atingidas pelo Rompimento da Barragem de Fundão. Descrito pelo professor Mario Monzoni como um "irmão" do livro, a plataforma digital reúne um acervo inédito com aproximadamente 10 mil fragmentos de relatos, constituindo uma das maiores compilações de memória sobre desastres socioambientais do mundo.
"A gente criou um banco de dados que já está público, com todas essas narrativas. É possível filtrar por território, filtrar por temas etc. Do ponto de vista acadêmico isso pode gerar outros filhos aí na frente", celebrou Monzoni durante sua apresentação.
O material é fruto de 251 interações de campo – entre oficinas, rodas de conversa e entrevistas – realizadas por pesquisadores do FGVces entre 2019 e 2022. Cerca de 2 mil pessoas participaram desse processo de escuta qualificada em Minas Gerais e no Espírito Santo, seguindo a premissa da centralidade da vítima para diagnosticar os danos causados pelas empresas Samarco, Vale e BHP Billiton.
A plataforma foi desenhada para servir tanto como instrumento de luta pela reparação quanto como fonte de pesquisa acadêmica para a prevenção de novos desastres. O sistema permite consultas por palavras-chave, recortes territoriais ou dimensões temáticas (como saúde e alimentação), garantindo sempre a anonimização dos participantes. Mais do que dados, o banco preserva a memória de como a lama alterou drasticamente os modos de vida na bacia do Rio Doce, evidenciando as violações de direitos que persistem no território.
Para conhecer a plataforma, acesse aqui.






















